Paisagem imaginária

Renata Marquez

John Cage criou o piano preparado em 1940. Era um piano em cujas cordas introduziam-se objetos tão estranhos à música como parafusos, borrachas, plásticos, madeiras e panos. O piano preparado produzia sons ao mesmo tempo familiares e deslocados: familiares porque nasciam da fricção de objetos ordinários; deslocados porque tais objetos definitivamente não tinham sido projetados para serem usados como instrumentos musicais, ao contrário do piano. Sabemos, hoje, que essa fricção entre os objetos e o instrumento teve como desdobramento equivalente a fricção entre paisagem e música. O que Cage realmente provocou foi a aproximação entre a paisagem e a música, colecionando ruídos ambientais e notas musicais numa mesma categoria sensível.

Imerso em ruídos ambientais que vinham de ações e ritmos banais, Cage nos capacitou para escutar a paisagem, entendendo-a não mais como algo que o olhar alcança mas como algo que o ouvido captura. A nova calibragem ouvinte oferecida pelo piano preparado compartilhava a competência musical, a escrita musical e a audiência musical com a vida cotidiana, numa artesania de assemblage que de repente passava a conviver com o ofício erudito do compositor, do afinador ou do lutier. Entretanto, o piano preparado ainda era um piano. Um recurso-instrumento que temporariamente abrigava nas suas cordas pequenos objetos intrusos.

Paisagem imaginária abandona o piano e aposta na feira bricabraque para construir instrumentos disfarçados de artesanias domésticas. Frederico Pessoa escolhe os parafusos, borrachas, plásticos, madeiras e panos em vez do piano, dando lugar ao vão aberto da sonoridade porvir ao construir máquinas sensórias à espera do seu acionamento pelos espectadores-condutores. Tais máquinas sensórias são fabricadas artesanalmente por meio de recortes precisos da paisagem sonora que nos rodeia e conforma. Elas contêm, na sua geometria de acúmulo, objetos dotados de memórias, significados e vestígios de outros usos, compondo, no seu conjunto, um laboratório para percepções simultaneamente sonoras e visuais.

Entre assemblage e ready-made, os instrumentos são construídos a partir da justaposição de elementos deslocados da sua função corriqueira mas, ao contrário dos ready-mades de Marcel Duchamp que têm na Roda de Bicicleta seu exemplar mais popular, os componentes dessas novas máquinas não foram resgatados ao acaso nem perderam simplesmente a sua função original. Em vez disso, foram minuciosamente procurados, devidamente experimentados e finalmente entregues à refuncionalização, assumindo novos papéis práticos. São novos mecanismos em vez de antimecanismos.

Uma vez despertos do antigo sonho do piano preparado, percebemos que o caráter imaginário das paisagens de Frederico Pessoa pode vir a residir justamente no seu potencial faça você mesmo, sugerindo que haverá sempre novas e rudimentares máquinas de música cotidiana a serem compostas por fragmentos de um universo familiar desmontado e cuidadosamente reorganizado. Nesse laboratório, vemos o mundo como um grande instrumento in progress para a fricção entre paisagem e música.

Publicado no catálogo da exposição de Frederico Pessoa.
Belo Horizonte: Espaço BDMG, 2013.

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Frederico Pessoa, 2013