Google Earth é um dispositivo de visão que opera entre duas categorias de olhar: o vertical e o horizontal. A visão vertical localiza o observador fora do espaço em questão, num ponto privilegiado muito longe dos objetos que compõem a escala humana da paisagem. Com o Google Earth, temos o mundo para manipular com as mãos, numa disparidade radical do sujeito e do mundo. Mas este mundo é um conjunto de fragmentos justapostos de imagens captadas a partir de cima. O intervalo entre o limite de resolução de cada imagem quando descemos para o solo e a altura aproximada do nosso olho em nível do solo é o que chamamos de Espaço de Miopia do Google Earth, variável para cada lugar visitado. O Índice de Miopia mede a nebulosidade do caráter público do território do Google Earth, uma vez que ele é universalmente acessível, mas filtrável a partir de um lugar de controle. O GeoEye, atualmente o satélite comercial capaz de gerar imagens com maior resolução espacial, é apoiado, em primeiro lugar, pela Agência Nacional de Inteligência Geoespacial dos Estados Unidos e, em segundo lugar, pela Google, que receberá imagens abaixo da capacidade técnica de resolução do satélite, devido a uma restrição imposta pelo governo. Nenhum olhar é neutro, muito menos o olhar sem olho dos satélites, de miopias politicamente reguláveis. E se há nuvens naturais, que impedem a visão durante a sua travessia, também há nuvens artificiais que congelam a paisagem como óculos compulsórios. [...]

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R. Marquez e W. Cançado. 2008